sábado, 10 de setembro de 2011

A hora do espelho




A cara de um louva-a-deus ele se pôs diante do espelho. O bendito juntava as mãos ao rosto enrugado e pesava o tempo com suas toneladas de horas para envelhecer mais que qualquer coisa do mundo.  O põe-mesa, garçom de seus próprios desesperos, olhava a força das rugas que partiam dos olhos na direção das orelhas. A palha cinza das horas devoradoras de cabelos, traços de felicidade e sinais de homem convicto das conquistas, caia na solidão das calvícies. Leonel ponderava a hora do espelho com a angústia de estar velho e sentir-se velho e  entorpecido na própria imagem; investigando a si mesmo como um quase inseto, um esqueleto esquisito, um mimético louva-a-deus que o espelho não engana mais: Leonel vai tentar novamente o fármaco que promete juventude na próxima hora, sem no entanto, largar essa posição morosa que implora, com muita fé, retardar o tempo em que o rosto se apresenta outro – se é que exista tal milagre – um inseto incoerente. 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Entre a porta e os lábios




   O universo cabe em um ínfimo instante. Para chegar ao adjetivo diminuto, ínfimo, a memória aciona o rosto de Lívia, ali entre a porta que fechava e os lábios oferecidos por excitação. Ela queria aquele beijo, porque conduzira cada detalhe e o jeito de olhar como se um fogo queimasse todo o resto do prédio de escritórios. Ela planejou assim: os amantes ficariam um de cada lado da porta entreaberta, esperando o beijo do outro como se fosse o único momento realmente importante... E uma voz vinda do corredor atrapalhou tudo, muito mais porque desconcentrou os ouvidos. Eles que se entregavam ao silêncio dos abismos riscados por asas silentes, ganharam o peso que as pernas fazem para segurar o corpo.  O ar da respiração também ganhou um leve desespero no rosto, preenchendo de cinza o recanto para onde foram os olhos dissimulados e injuriados; a compostura das mãos colocadas exatas no trinco dos dois lados da porta... E quem chegava, perguntou: vai me deixar passar? vai sair da porta? E coisas mais sobre números, cálculos e impostos foram anunciadas. E coisas mais sobre o barulho infernal das misérias da metrópole, medidas pelo barulho dos sapatos de Lívia. No mais longo trajeto da porta fechada, o universo parecia-lhe agora um emaranhado confuso, recheado de instantes recuperados nunca mais. E assim, aquele beijo deixou de ser importante.   

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Os sinais da partida



   Prestar atenção nos sinais que partem. Homens e bichos são capazes de acuidade e descuido. Distraídos percebem o movimento das coisas que partem. Quando elas chegaram, numa lenta difusão até ganharem os olhos, estavam na rotina. Luana distraída não podia perceber a atenção que recebia daqueles pensamentos. A força deles moveu o vento mais próximo de seus braços e busto; raios de sol levantados de manhã atravessaram sua roupa de algodão; respingos de ainda passageiras nuvens caíram em seu rosto... E nada! Luana somente veio perceber os sinais da partida: o carro movimentou-se violento e importuno; o sol deixou-se numa sombra da marquise de uma loja infernal, barulhenta e desalmada; os respingos do próprio suor, quentes na pressa urbana e consumista, chocou-se no artificial do ar refrigerado daquele cheiro de roupas para vestir gente padronizada, e sempre faminta, e sempre atenta ao apego das bolsas carregadas ao peito, sempre medrosas... Perdeu o último sinal. Fechou o tempo. Caiu uma chuva que ninguém sabe de onde partiu.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Manchas decifradas somente nos dias de bruxa



  Deus descansa no varal. Laura pensava nisso o tempo todo. Parecia-lhe que vozes celestiais anunciavam, num breve adágio, aquilo que o aprendizado amoroso havia ensinado aos cinco sentidos da jovem mulher: os olhos amavam deitar o azul; os ouvidos escutarem as nuvens a se espatifar nos arcos do sol amanhecido; as narinas misturarem as bolhas de sabão a um indescritível retrato das três fatias iluminadas de terra, vegetação e amplidão, borrifando um cheiro também de intimidade ingênua, dedicada e supostamente feliz... Enquanto a saliva tomava da felicidade seu esconderijo secreto e o tato do amor prendia os lençóis brancos na luminosa manhã, sabe Deus de onde vieram aquelas nuvens de insetos abrasivos? Sabe explicar por que escureceu o asqueroso choque de milhares deles nos lençóis de Laura? Por que deixaram tantos cadáveres sobre a úmida e macia presença de seus melhores sonhos? Sabe por que dos palavrões de agora? Sabe por que da repentina e descabelada dez horas dessa manhã escura? Os lençóis ficaram ali e um sopro de retirada varreu Deus para os dias de inverno: Laura refazia a intimidade e, supostamente infeliz, limpava sua provação, seu arrependimento, descobrindo manchas decifradas somente nos dias de bruxa. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Maquiagem marca registrada


   A moda nunca engole a idade da razão. Lavínia carregou nos cílios e na maquiagem. Comprou seu arco-íris e quis admitir superioridade, cidadania e postura. Não que as possuísse somente quando de farda corporativa e desastroso salário-mínimo e meio. Não que escondesse a condição e a “condução” que pegou para chegar às bordas das paradas: a parada de ônibus e a Parada monumental e descontraída há dois quarteirões...  É que simplesmente parou e pensou na condição mais rasa, na leitura sua mais exposta, no verniz seu mais evaporado e na moda daquele gigantesco redemoinho humano, sem encontro, pensou mais, sem dois, sem palavra significativa, sem questionar onde está a violência, a exploração e a desumanidade... Lavínia, meio rigorosa, parou há poucos metros da parada; arrancou da bolsa que trazia a transmutação das roupas: para cada peça da Parada, uma peça da Empresa, até chegar aos cílios e retirá-los como se um espelho estivesse ali, até levantar os olhos e a curiosidade das Lavínias que passavam e que alimentaram uma fração de desconfiança... Lavínia saiu-se ligeira dos metros da massa multicolorida, na direção da massa que fermentava repetidas oito, dez horas todos os dias de trabalho como operário.  Não adiantou nada: chegando lá, fez o inverso e quis colocar os cílios e a maquiagem marca registrada. Recebeu um “isso não, ex-funcionário do mês! Isso, aqui nunca!”. 



terça-feira, 9 de agosto de 2011

O resultado de um “X”



   Entre a insistência e a teimosia não existe conquista. Não soube o motivo da separação, pois avaliava que tudo estava indo bem. Havia se comportado em dois natais, dois carnavais, com equilíbrio e dedicação. Foi surpreendido com um adeus e exigiu explicações, pediu o novo endereço, telefonou, passou e-mail, conversou on-line, insistiu num encontro, jantar a dois em restaurante caro... Lucrécio apostou todas as fichas em reconquistá-la, demonstrando ser ainda mais equilibrado em atitudes e falas, ainda mais dedicado como um desses pássaros fiéis para sempre. Jantar às 21h, pontualidade masculina, vinte minutos antes, andar seguro, olhos risonhos, tudo perfeito. Esperou, entre doses infindáveis de veneno, a mulher que não veio. Depois cruzou a cidade em minutos, chegou à portaria daquele prédio e quis saber da fulana. O porteiro repassou-lhe envelope e dentro daquele embrulho apareceu uma fotografia: o casal no auge e um belo “X” em duas pinceladas vermelhas riscando -  pincel marcador tinta permanente - o rosto daquela impiedosa. Ela partiu para outro lugar desconhecido, deixando esse desaforado resultado. Mesmo assim, Lucrécio guardou a fotografia na carteira, teimoso e triste. Mesmo assim, agradeceu ao porteiro e saiu um desses pássaros com jeito de pássaro desajeitado no chão.


  

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O jeito de tecer uma tarde



  As pessoas calam profundamente. A praça, sitiada por enormes prédios opressivos e surripiados pelo calor solar, repete algum frescor de sombra e água naquele tanque que outrora possuía um belo chafariz. Gente bem velha repousa os olhos nesse filete de água insistente; embora um filete, ele escorre da gárgula que a parede do chafariz incrustou como se por teimosia guardasse o jeito de tecer uma tarde de verão. Enquanto isso, apenas Laércio pesa as pálpebras nessa água que flui a deitar um espelho escuro de água. Água que retira do sol a própria fulgência: o corpo equilibrado numa bengala, para não tombar do cochilo e cair mal quebrado... Laércio  imagina que lhe cabe terminar a oportuna velhice, num ponto em que a gárgula de sua juventude devorasse o silêncio das pessoas apressadas, sem o menor jeito de tecer uma tarde. Porém, a gárgula não consegue ir muito longe. Ninguém percebe sua transformação. Ninguém se assusta.